fevereiro 20, 2005
Evolu?
A virada para este s?culo venceu o prazo de validade de v?rias entidades comerciais, que deixaram saudade, pelo menos, em minha pessoa. A sua pessoa nunca deve ter ouvido falar, a n?o ser que habite a Nikity City desde priscas eras.
Chamo de "entidades comerciais" porque eram mais que apenas casas de com?rcio. Tinham forte personalidade e o mesmo estilo: rascante. Eram, primeiro, a Leiteria Brasil, local pr?-diluviano, onde os senhores e senhoras tomavam canjas e outros reconstituintes salutares. No card?pio havia at? 2 tipos: "canja" e "canja com galinha", uma coisa que parecia fazer sentido para os gar?ons e a clientela, e que eram servidas repletas de rodelas de cenoura. Tinha um jeit?o meio "caf? em Paris", mas com pessoas mais mal-humoradas. N?o era um boteco, n?o era restaurante, era um templo da respeitabilidade.
Em seguida, morreu uma esp?cie de lanchonete-mercearia, em frente a Leiteria. Era a Sportiva. Voc? comprava ?timas frutas, tomava lanches, comprava frios e, se quisesse, podia comer, em p?, junto a porta da rua, uns salgadinhos que s? existiam l?. O balconista era meio doido e, se via que faltava pouco para a hora da loja fechar, te servia tudo (eu disse tudo) que estava na vitrine, para encerrrar logo o expediente. E s? cobrava aquilo que voc? tinha pedido originalmente.
E agora descubro que subiu no telhado a velha Pastelaria Imbuhy !! Danei ! Eu estava esperando ter uma c?mera decente para ir l? registrar aquilo... e perdi a chance! Ela acabou, levando com ela seu pastel gigante, seus dois murais pintados em ladrilhos, que reproduziam uma cena do Aterro do Flamengo nos seus primeiros anos de vida (final dos anos 50), onde aparecia um t?pico "carr?o" da ?poca, numa das paredes. Na parede em frente, havia uma c?pia parcial de um quadro famoso do franc?s Jean-Fran?ois Millet, "As Respigadoras". E, o melhor de tudo, ao fundo e no alto, num v?o quadrado na parede, havia duas miniaturas de barcas, indo e vindo vagarosamente, e balan?ando levemente, como se estivem flutuando. Era uma reuni?o de coisas t?o estapaf?rdias que fascinava quem ia l?, de crian?as at? cacuras.
Claro que o tempo passa e leva as coisas, transforma outras e traz muitas novidades. Mas o interessante ? que, ao levar embora lugares como esses, parece que transforma a cidade num lugar qualquer, indistinto dos outros, um nome num cat?logo. Quem desconhece Niter?i pensa que o ?nico m?rito desta plaga ? ter uma linda vista do Rio. Mas, para quem vive por aqui, essa perda de s?mbolos mixurucas, ? como se a gente sa?sse de casa para ir trabalhar e, quando voltasse, encontrasse novos m?veis l? dentro, sem saber onde foram parar os velhos e familiares. D? para viver com isso, mas tamb?m d? uma sensa??o de morar dentro da casa dos outros.
Agora eu tenho a tal c?mera, capaz de fazer fotos maravilhosas e registrar, para sempre, constru??es geniais, como o grande penico arquitet?nico sem al?a, majestosamente plantado de frente para o mar, chamado Museu de Arte Contempor?nea. E que se tornou s?mbolo imponente da cidade. Eu devo estar com sorte...

Postado por Eulina Rego em fevereiro 20, 2005 11:46 PM